O escuro turvo do quarto embriagado. As curvas, a bunda, o passado. A persistência do mundo que não me pertenceu interrompido pelo som de alguém batendo na porta.
- Mas eu pedi a pizza há 5 horas atrás! A exaustão me adormeceu e...
- Eu tô aqui batendo na porta há 4 horas e 20 minutos. A previsão de entrega de 40 minutos não se excedeu em nem mais um minuto. Metade calabresa, metade presunto.
Os 7 reais do troco até foram pouca gorjeta pelas horas de espera consumidas pelo entregador até eu perder o sono e levantar. Pedaço após pedaço, uma caixa vazia. Os olhos voltaram a pesar.
Tentei voltar ao quarto, mas qualquer coisa impedia a porta de se abrir. Bati algumas vezes, mas ela devia estar ainda afogada no colchão, com a cara no travesseiro. Dei com o olho na fechadura. Sem névoa, agora a noite parecia até clara lá dentro. O sorriso dela dormindo abraçado ao nosso futuro. Minhas mãos perdidas em intermináveis cálculos sem números. Meus olhos fazendo de mim a única peça restante ao cenário de dentro. A lágrima que escorreu pelo outro lado da porta e tocou o chão do quarto foi só o que excedeu de um lado e transbordou pro outro: não era nova. Do lado de fora, de nada adiantava tanta certeza em mim: eu não conseguia entrar.
Sexta-feira, Abril 18, 2008
Toda a pressa e todo o método que passaram a caracterizar meus dias fizeram-se apenas por um saldo maior de sono no fim das contas.
Ela parece de seda
Quando os olhos acordaram de verdade e sintonizaram o mundo, muita chuva já tinha molhado as tantas ruas de distância que se despediram do último beijo, que só se restava num eco muito abafado, quase mudo, na memória. Tinha-se, assim, a primeira pontada de uma qualquer saudade, manifestada ainda tão sem importância e sem força, que logo foi substituída por um estalo que trouxe, em uma inundação, à tona: findava-se a minha parte nas obrigações dela e meu olhar distante e perdido devia ser logo trazido com rédeas pra não mais que um palmo de distância do meu nariz, atentando agora apenas pras minhas próprias obrigações do dia.
Foi tudo tão rápido pro relógio gritar um novo atraso, fazendo correr as pernas gripadas pelas escadas até o carro. Em não mais que duas piscadelas, remexia-se a criatividade para uma nova desculpa pelos minutos que sobravam além da hora marcada, mas a roupa molhada da chuva, as fungadas constantes, a voz anasalada e os diversos remédios que não se mantinham guardados na bolsa verde por muitos segundos sem serem intercaladamente consumidos devem ter sido justificativas suficientes: “não tem lado sem cobrança, professor. Não há postura que se mantenha, não tem gola que não se desfaça, não há camisa que não se amarrote. Hoje, pelo menos, o calor deu uma trégua...”
O olfato perdido, os ouvidos tampados, a tosse cheia de catarro já eram o bastante para fazer da usual distração um afogamento no mundo de uma gripe besta e teimosa sem vontade de deixar o corpo realizar as vontades com eficiência. Pouco espaço sobrava pros casos dos pacientes, para a dor anal de não sei quem, para a mobilização de esforços pelo trabalho científico a ser publicado, pelas discussões que se fingiam pelos métodos e camuflavam o verdadeiro foco, sustentado nos egos dos que tomavam parte da coisa. A verdade é que o mal-estar da doença só deu uma trégua nos momentos em que o olhar se perdeu fixo e focalizado em qualquer bobagem, como a calva lustrosa do professor, coberta pelos últimos resistentes fios, jogando meu futuro contra mim, relembrando a efemeridade da minha cabeleira ainda ostentada. E, assim, de repente, por mais de uma vez, as lembranças da manhã tomaram a cena, misturaram-se em bandos de momentos sem distinção, na deliciosa confusão da seqüência dos fatos, e teve-se, a cada minuto consumido, uma intensificação daquela primeira pontadinha que me acordou. Ela tinha sonhado tanta coisa ruim e veio pelada, cheia de desespero, pedir muito pra que eu nunca a deixasse sem mim. Ela desliza tão fácil pelos meus braços e se acomoda tão bem no meu corpo. Meteu-se debaixo do meu edredon tantas vezes pela manhã pra sair tantas outras pra ajeitar um bando de coisa cheia de jeito. As pernas morenas em idas e vindas, no seu trânsito pelos poucos cômodos do apartamento, margeavam o meu colchão e eu, sem conseguir retomar o sono, assistia a tudo, ansioso por tê-la por mais um momentinho dividindo as minhas cobertas de solteiro, escutando minha voz em novas declarações, com minhas mãos apertando toda a pouca carne que ela tem, com meus braços prendendo-a sempre um pouquinho além da sua manifestação de vontade e presenteando-a com a certeza que, em todo instante, precisa ter reafirmada até pela minha transpiração.
O dia se consumou numa fuga constante dos possíveis momentos solitários e, quando a louça já se dava quase toda por lavada nesse intuito, a voz dela chegou-me mais uma vez pelo celular. Agora tão mais repleta de satisfação dos que das outras vezes. Tomou-me no turbilhão da sua felicidade e quase me sugou pelo telefone. O eco de um novo beijo já se ouvia. Aproximando e aumentando progressivamente.
Foi tudo tão rápido pro relógio gritar um novo atraso, fazendo correr as pernas gripadas pelas escadas até o carro. Em não mais que duas piscadelas, remexia-se a criatividade para uma nova desculpa pelos minutos que sobravam além da hora marcada, mas a roupa molhada da chuva, as fungadas constantes, a voz anasalada e os diversos remédios que não se mantinham guardados na bolsa verde por muitos segundos sem serem intercaladamente consumidos devem ter sido justificativas suficientes: “não tem lado sem cobrança, professor. Não há postura que se mantenha, não tem gola que não se desfaça, não há camisa que não se amarrote. Hoje, pelo menos, o calor deu uma trégua...”
O olfato perdido, os ouvidos tampados, a tosse cheia de catarro já eram o bastante para fazer da usual distração um afogamento no mundo de uma gripe besta e teimosa sem vontade de deixar o corpo realizar as vontades com eficiência. Pouco espaço sobrava pros casos dos pacientes, para a dor anal de não sei quem, para a mobilização de esforços pelo trabalho científico a ser publicado, pelas discussões que se fingiam pelos métodos e camuflavam o verdadeiro foco, sustentado nos egos dos que tomavam parte da coisa. A verdade é que o mal-estar da doença só deu uma trégua nos momentos em que o olhar se perdeu fixo e focalizado em qualquer bobagem, como a calva lustrosa do professor, coberta pelos últimos resistentes fios, jogando meu futuro contra mim, relembrando a efemeridade da minha cabeleira ainda ostentada. E, assim, de repente, por mais de uma vez, as lembranças da manhã tomaram a cena, misturaram-se em bandos de momentos sem distinção, na deliciosa confusão da seqüência dos fatos, e teve-se, a cada minuto consumido, uma intensificação daquela primeira pontadinha que me acordou. Ela tinha sonhado tanta coisa ruim e veio pelada, cheia de desespero, pedir muito pra que eu nunca a deixasse sem mim. Ela desliza tão fácil pelos meus braços e se acomoda tão bem no meu corpo. Meteu-se debaixo do meu edredon tantas vezes pela manhã pra sair tantas outras pra ajeitar um bando de coisa cheia de jeito. As pernas morenas em idas e vindas, no seu trânsito pelos poucos cômodos do apartamento, margeavam o meu colchão e eu, sem conseguir retomar o sono, assistia a tudo, ansioso por tê-la por mais um momentinho dividindo as minhas cobertas de solteiro, escutando minha voz em novas declarações, com minhas mãos apertando toda a pouca carne que ela tem, com meus braços prendendo-a sempre um pouquinho além da sua manifestação de vontade e presenteando-a com a certeza que, em todo instante, precisa ter reafirmada até pela minha transpiração.
O dia se consumou numa fuga constante dos possíveis momentos solitários e, quando a louça já se dava quase toda por lavada nesse intuito, a voz dela chegou-me mais uma vez pelo celular. Agora tão mais repleta de satisfação dos que das outras vezes. Tomou-me no turbilhão da sua felicidade e quase me sugou pelo telefone. O eco de um novo beijo já se ouvia. Aproximando e aumentando progressivamente.
Assinar:
Postagens (Atom)