Sábado, Abril 29, 2006

O futuro não morre.




Às vezes acho que morreu ele há algumas semanas.



Há vezes em que imagino.


Ele podia ter morrido.

Sexta-feira, Abril 28, 2006

Quando pensava olhar e observar o que há de bonito na rua, mas perdido no que de bonito foi e que se faz em saudades, dei-me com ela.

Postou-se em meu caminho, bloqueando com o corpo minha passagem.

Tomava-se toda em uma tranqüila apatia, com os olhos voltados pra frente, sem se darem em desvio por segundo que fosse.

Segurou firme minhas duas mãos, esperou que se passasse meu susto, que da cena se desse em mim a digestão, que pela atmosfera eu me deixasse envolver, que a minha falsa aparência de pressa se perdesse, que de fugir deixassem os meus olhos para os dela encontrarem enfim.


E se encontraram.


O vento bagunçava nossos cabelos, inflava nossas roupas e o mundo todo em volta fez-se numa sinfonia calada.

Afogamo-nos um nos olhos do outro, quando já era quase esquecido por mim como é se afogar em outro qualquer lugar que não na minha própria cabeça.

As mãos pulsavam e comprimiam-se na nossa busca irracional de nós mesmos...um no outro.

E seria um ou outro dia, já se sabia...A gente se esperava tanto, que nossa fuga não se consumiria mesmo por muito tempo.


- Eu te esperei tanto, moça.


Senti seus dedos enroscarem-se nos meus e percebi que fazia isso com o máximo de sua força, com o máximo de intensidade, como se tentasse compensar o quanto faltaram entre nós quaisquer toques.

E como do corpo todo, também dos lábios nenhum movimento se pôde perceber nela. Manteve-se calada, com a vista ainda perdida no mesmo ponto, com fios de cabelo tomando parte da testa, do rosto. E no brilho fosco do final da tarde, fez-se linda.

E finalmente desfez-se minha ansiedade. Já não me importei que se mantivesse ela calada e estática, do mesmo jeito, desde que estivesse junto de mim.

Os pensamentos todos fizeram-se leves e não consegui tomar em lembrança outra vez que havia sentido o que senti. Não havia o que pensar, estava tudo bem, já se tinha passado a parte ruim...toda.

Desenroscou-se todo o emaranhado de perturbações que ininterruptamente me assolavam. Desfizeram-se todos os nós, os coágulos, as lacunas e, então, em alvura, levitei.

Senti-me sendo acordado por um afago materno do meio de um pesadelo horrível e que estava sendo então coberto e envolvido todinho na cama pela colcha, com a certeza de que poderia enfim dormir em paz, pois os sonhos ruins já haviam sido espantados por minha mãe.


Foi quando deu ela um passo a frente e foi com o corpo todo de encontro ao meu. Desmanchou-se toda a fortaleza em que eu acabara de me avigorar. Deu com o rosto envolto em lágrimas no meu peito.

Molhou-me todo de seu despropósito, encharcou minha blusa de sua fuga, inundou-me de nossa privação, até tomar-se de um leve tom a sua fragilidade tanto dissimulada.


Demo-nos as mãos e sem norma saímos correndo pelas calçadas. E de rumo não se tinha mesmo falta, pois por completo deu-se o percurso e já se havia alcançado o buscado destino.

Flutuamos em meio à multidão apressada das ruas na sinfonia que retomava seus sons em afinação.



Da bobagem de se acreditar um dia chegar lá, rimos.
- preciso saber que horas são.

- por quê?

- pra saber quanto tempo a gente ainda tem...

- seis anos?
Puxei-a pelo braço para uma dança.

Já era muito de se saber que eu não sabia dançar, mas que me ensinasse os passos ou pelo menos tentasse.

Tomei-a pela cintura.

O corpo deslizou tão leve no meu, as costas caíram para trás, as pernas esqueceram-se e os nossos olhos encontraram-se de vez.

Foi aí que o mundo todo não hesitou em parar e se fazer por completo naqueles grandes olhos castanhos.

E era tão maior ali...

E nós éramos tão maiores ali quando se fazia o mundo inteiro apenas em nossos dois corpos juntos.



Mas foi em meus braços, e só em meus braços, que ela se esqueceu de como dançar.

Quando eu a tomei comigo, com força, dando-me mais do que me dei a qualquer outra...ela deixou de saber dançar e não se deu o nosso primeiro passo.

E como estagnado não poderia manter-se assim o mundo, o dela - que não nosso - primeiro passo se deu.

Mas só se deu em sentido de se distanciar de meu corpo.



E, numa certeza nossa, ela retomou sua dança sem mim.



Não sabemos dançar juntos.

Sábado, Abril 01, 2006

Brinquedos espalhados pelo chão.

Sapequices e peraltices!

Faz-se arte, vem a bronca.

Faz-se o choro, tem-se o mundo.

E tudo dura um segundo nessa agitação.



Fui eu criança aos 19.

E tive de novo o mundo nas mãos.


Fui eu de novo criança aos 19.


Deu-se um tempo na “dance music” que agitava o salão e tomou-se ele todo numa atmosfera lenta de música.

Postaram-se de um lado as meninas, do outro os meninos, seguindo a regra à risca, seguindo a risca do chão.

Escorreu frio pelo rosto o suor, contraiu-se corpo todo e tinha-se enfim o momento da noite aguardado tanto.


E dum canto, via-se ela.

Flutuava pelo corpo a blusa laranja, escorria por ele leve em deleite como se dele tivesse sempre sido parte.



A saia exibia pernas.

As pernas exibiam passos.

Os passos exibiam pressa.

E noticiavam-me que não se fazia em disposição toda a noite.


Cruzavam-se os olhos, os olhares, as vontades.

Desviavam-se e fugiam-se, no confuso jogo da timidez infantil.


Sentiam, queriam, sabiam, receavam.


E era só pra se fazer em pressão que existia o relógio.

E era só pra se fazer em tensão que persistia o receio.


E como era boa aquela insegurança, como era gostoso aquele medo!

Como por mais tarde é ainda cedo pra se fazer a sintonia num “então...”.



Tomou-se então em leve vento no marasmo a noite.

Em garrafas enchendo-se de água, em canções nunca antes ouvidas, em ratos teimando em assustar e tentar desfazer a meiguice da menina com os olhos distantes na areia a receber o mar, em constantes indas-e-vindas, perdida.

Soando tudo isso como bailinho, como dança de nós dois juntinhos, em festa infantil.


E fez-se assim até seu fim.

Cantando-se e contando-se os sons e risos do passado...

na esperança quase certa de novos bons tempos.