Domingo, Abril 24, 2005

- O Acre é a bunda do Amazonas

Sexta-feira, Abril 22, 2005

A desilusão do ser pós-moderno.

Amamos muito, amamos pouco
arriscamos muito, agimos pouco
fugimos muito, aceitamos pouco
tentamos muito, conseguimos pouco

Ridiculamente fúteis.
Excessivamente agressivos.
Imperdoavelmente possessivos.
Chocantemente inúteis
e estupidamente pretensiosos-
[quiçá até pernósticos.


Profundamente inseguros.
Desesperadoramente perdidos.
Rapidamente mexidos.
Absolutamente em apuros.
Abominavelmente vis.
[ ah essa... Uma vileza sem fim...

Acertadamente, o martelo do mundo vai - tranqüilamente - nos quebrar em milhões de pedacinhos...

E sabe o que mais ?
Mais nada. Que todos vocês se danem.
Ela consentiu.

Quarta-feira, Abril 20, 2005

Mas a gente se mete em cada uma. E em cada uma, os pés se entrelaçam, e viram piruetas, e as piruetas viram redemoinhos, mas a gente esquece de voar. Ou os ventos esquecem de levar a gente e a gente esquece de virar vento.
Vento que vira camaleão, não quero reconhecer você, não, pra quê? De tudo que há de agito, bate no próprio peito e já entra junto. Já puxa o que há de ritmo e esquece de virar agito, assim, de repente. Esquece, acontece, e pega o primeiro ônibus que vier, e foge do que há...de agito.
Poltronas reclináveis, um tanto, quanto der pra reclinar, bastante, vira leito, vira cama qualquer. E abraça quem do lado estiver, quem não importa, e mostra o teto. E de teto, há muito mais de teto, não mais que teto, no teto.

- E olha - explica - desculpa, abraço você, porque não tenho mais ninguém pra abraçar.
- Pô, valeu, era tudo que eu queria, que surpresa, fez meu dia.
E desce.

Abraça o que sobrar, sei lá, nada. Outra vez, não se arriscaria, mas bem podia, bom seria, quem? Não sobra ninguém, nunca sobra, quem? Deixa. Deita a cabeça de lado e finge alguém. Finge traços e finge curvas. Curva! Ai! De disperso, na parede, de cabeça, se dispersa. Esparrama-se por bancos e lados e dá-se de cara com o próprio ponto. E no tempo, arranja um ponto e puxa a corda. Recolhe o que dá das angústias espalhadas, corre e desce.
Ensaia um tchau pro que ficou, mas nem aplica, logo passa. E, no olhar de lado, os pés se entrelaçam e se tropeçam, os olhares se arrumam e os pés, também.

Terça-feira, Abril 19, 2005

aquela nuvem parece uma bigorna.

Acordo pela manhã, as vezes tarde o suficiente para que já tenha alguém batendo à porta gritando uns troços sem sentido como "olha o strudel de maçã" ou "e você é amarelo, sabe o que mais é amarelo? você é!", e sinto saudades. Lembro de estar bêbado por que eu sou idiota, ter saltado da grade da piscina e machucado um pouco o pé, e depois ficar com cara de mordido enquanto você no meu colo me dava carinhos e virava o rosto pra mim na esperança de que eu risse de novo e de novo do esparadrapo enorme que guardava a sua bochecha. Lembro de depois quando voltando pela Sumaré a noite, com o Vitor mijando em todas as árvores da avenida , ter pensado que dado havia de imbecil de novo, pois tinha uma loirinha linda e apaixonada me querendo em paz naquele domingo mesmo e eu estava preocupado demais perambulando pelos outros domingos do ano. Eu sinto a sua falta. Vou dormir olhando os coelhinhos de papel colados no meu teto, escondendo os furos, viro para notar o suricate sobre o monitor do computador, e você sorri nos cantos já do começo da noite quando não sei onde começo a sonhar e você está lá, de jeans e camiseta de alças, rindo de tudo quanto é bobagem -aquelas coisas engraçadas que todo mundo nota, mas só abre um pouco sorriso de lado e você abre tanto a boca que parece que vai gritar de tanta alegria tonta- e rindo de mim e da minha mania de ficar procurando motivo pra ficar nervoso e sério, que de repente se encontra numa vozinha fina e irritada reclamando um "você não entende!" ou "brincar de gostar de alguém é muito fácil" e eu mesmo noto que estou com uma cara besta e não sei por que fico com voz fina quando quero bronquear alguém. E você mantém as vezes o rosto perdido, põe as mãozinhas na cabeça, olha para o céu ou para o chão e suspira com a voz trêmula "não estou entendendo nada", e eu aproveito para encontrar um canto bonito no monte de porcaria que eu vinha dizendo, e você sempre olha depois como se eu tivesse dito a coisa mais linda do mundo pra as vezes colocar um "que lindo" ou um inclinar de pescoço e um beijo perdido no discurso que me deixa bobo e me faz querer virar pra você e apostar quem voa primeiro. E então eu acho que 'aquela núvem parece uma bigorna', e esqueço que você está lá por um segundo, e então te vejo e suspiro por que você é a coisa mais linda desse mundo, e não sei por que diabos é minha. Aqui me noto parado assim em uma saudade que não sinto das coisas que saem mas daquilo que me tem em agora. E agradeço ao universo por ter feito você cruzar a minha vida e ter ficado o suficiente pra ter notado alguma coisa em mim que nem eu noto.
E quem sabe devesse agradecer por ter visto em você alguma coisa que ninguém mais vê, ter ficado doido por você e ainda estar doido por você e mais, acordar cedo, mais cedo do que eu gostaria, vestir calças para andar pela casa, chegar à varanda, encontrar no topo das casinhas alguém que também esteja olhando o céu para olhar e não pensar que deveria estar fazendo alguma coisa útil; encontrar uma nuvem que pareça você perdida num abraço, com o rosto inclinado e os lábios entreabertos, comigo as vezes engraçado, as vezes bonito, as vezes exagerado, mas sempre apaixonado te beijando a ponta das orelhas e esquecido de falar "vou deixar a barba" ou "quero que meu filho nasça num mundo onde se possa escolher" ou ainda "vou até cuba impedir que abram o mercado e acabem com aquele negócio lindo da baía dos porcos", pra ter no rosto estampado que na verdade sou só menino e sou só seu o tanto quanto você é só minha...e o mundo de repente não é mais só ruas e avenidas vazias com flanelinhas e transito; mas é ruas e avenidas com flanelinhas e transito....e eu e você.

Eu sinto a sua falta.
Aqueles homens sem camisa, sentados na bancada, parecem periquitos descansando num poleiro; agora se batem, e entre os mamilos rodeiam pelos, suam e escorrem e fedem, perdem meu carinho pela minha gente e meu país, no que se tornam gárgulas na gávea e se de pedra; por culpa minha e do tanto descaso.

Sexta-feira, Abril 15, 2005

Não mais só Pimenta.

Um pouco de mim no Changez-Tout.

(todos atentos ao hífen, é o novo toque especial)
Não fui eu quem abriu o coração pela primeira vez com Pimenta.

Não sai do abnegacao, cá estou.
E quanto ao projeto.... você que não está ligando...

Aliás...por que eu estou respondendo tanto? Pra você:

Hunf. (cara de desprezo)

Quinta-feira, Abril 14, 2005

Changez Tout.

www.changez-tout.blogspot.com

Com artista convidado; Pedro Augusto de Mattos Pimenta.
Já vive.

Terça-feira, Abril 12, 2005

Esgana o gordo monstruoso. Sei lá, pendura no ventilador, afoga na privada, faz dele uma piada ou esmague sua cara balofa com um extintor. Pula-que-pula na barriga dele quando estiver caído, brinca de trampolim. Cinco pulos no seu barrigão, cinco baitas porradas na sua cara esburacada e, ao pra ela olhar, sempre a involuntária e repentina desviada, evitando posteriores pesadelos quaisquer. Esquece o quanto se deseja da sua morte, ao se perder num pula-pula temático de buffet infantil, e o quanto se faz de desejo de tantas outras, quando acumuladas no empenho de emperrar o que se tem de dia, deixando apenas que se depare com cincos e cincos; torradas, dedos e marchas; angústias, lugares e mágoas. A agenda mistura os dias e os dias imploram por diferentes horários. E imploram por uma agenda de camas confortáveis, edredons macios, ventiladores sem obeso fastidioso pendurado, água gelada...e mais cama. E por um lugar onde não existam telefones, seus toques, seus barulhos. Que esses não invadam as horas contadas de quarto escuro, da deixa de poder ausentar-se um pouco das angústias, lugares, marchas e mágoas, e torradas forçadas, e dedos que contam, despreocupados, os cincos e cincos, e as horas, e o que sinto dos balofos frustrados, de ternos e rostos besuntados, untados, engordurados, pendurados nos ventiladores, espalhando, por todos os lados, suas banhas, suas artimanhas em piorar e incomodar vidas que só pedem, e nunca conseguem, passagem pra uma boa viagem em dias desemperrados, lugares de agrado, camas desangustiadas, sem mágoas, com água gelada que não seja de lágrimas, torradas que não sejam forçadas e nada que invada, com seu barulho, o quarto escuro, que prefere não amanhecer os dias que não querem ser.
Quando puxou a cadeira ainda tinha cortinas em frente a cama. A manta estava chutada para o vão entre a sola branca e o móvel velho desgastado. Sentou, e era como se o primeiro passarinho houvesse pousado na grade do lado de fora, e suas patinhas agarrassem a prata para que a corrente não as escorregasse. Só dava para ter dos olhos, uma meia lua castanha dada a dunas razas de areia molhada: me espiava, bem quando metia entre os dentes um pedaço enorme de pão empapado no café-com-leite. Então arregalou à redondo e me passou dois satélites cheios antes que pudesse pedir a margarina; perguntou se havia dormido bem. Consenti encabulado bem sabendo que se tratava da graça do desjejum cambaleante que ela vira deglutido por mim. Mas aí perguntei se era sempre assim descabelada e com cara de anta, quando se punha a vistos pela manhã; pôs a lingua para fora e riu, então contou que sonhara comigo. Perguntei sonolento se fora bom: ela contou:

- Nele você era diplomata.

Confabulou um pouco enquanto eu mastigava um pedaço de maçã e pensava como seria ruim se de repente as pessoas fossem pagas com boas quantias por cada bola de chiclete que fizessem: Eu seria de todos o único que não seria trilhardário, e provavelmente me chutariam na rua. Então mesmo de costas percebi desenhada num rastro mais claro uma veste de luz de banheiro sendo usado no corredor. Já estava assim presumida desperta a garota que ainda dormia até então: veio arrastando as pantufas a imitar folhagens em campo solto e nos saldou. Sentou e levou a mão ao vão da boca para tampar o bocejo -o que foi inútil:- Nos teve bocejando em unissono no minuto seguinte e afins. Então olhou para mim no exato instante em que babava pingos doidos de suco de laranja sobre o calção e eu juro que tentei conter mas me embaracei e derrubei a caixa de guardanapos sobre o pote de aveia que quase ao mesmo tempo a primeira menina me pedira para servir-lhe. Reconstruí o cenário engrossando a voz e contando que adormecera no sofá depois de ficar até tarde assistindo tevê senado. E então abri um sorriso terceiro secretário para comentar que as havia coberto de manso por que estava frio de madrugada.

Levantei neste assim reposto ao perfil que descrevera de mim.
É certo que havemos de ter tomado o mesmo ônibus algum dia.
Eu e você, alheios, longínqüos, profanos, e profícuos em tomar ônibus
Cada qual em seu banco do momento
Em si mesmando, e olhando tudo, distraídos muito

Não poderíamos se quer ver, pela janela entreaberta,
Que já nos conhecíamos...

Dias ou meses depois desse
Viríamos a entender
Que, de fato,
já nos conhecíamos.

Cada qual sentado em seu banco do momento
Descendo, cada qual, em seu ponto preferido
Pequenos donos alheios, de um mesmo trajeto...

...infinito.
Pelo lado era inevitável perceber que o cavanhaque de Carlos invadia o pescoço até o gogó. Se mantinha sentado à beirada da mesa branca de pés de aço negro, folheando em frênese a apostila de formação de condutores. O bigode era, em pontos, tingido de branco ou amarelado; quem sabe fumasse quando a declarar 'intervalo para café'. Quando pediu que marcássemos a página nos interíns do tópico de direção defensiva em que surgia figura colorida de um meia-idade careca portando uma muleta; desci a escada com a mochila nas costas para ler a declaração do restaurante de comida japonesa vizinho sobre a crise da tênia do salmão. "O perigo se limita ao peixe que não for mantido congelado à -18 graus; estamos nos conformes da lei e vigilância sanitarias". O relógio marcava dez, e já colocava vídeo de teste de cinto-seguro; pedindo dobrada atenção aos estilhaços que espetam os olhos. Carlos frizava sempre entre um piscar e o seguinte, que já fora antes um grandíssimo absurdo como condutor; e eu só conseguia retornar à infancia e ao desenho do Pateta, substituindo o Sr.Andante pelo próprio: Caminharia pela calçada extremamente cordial, com sua camisa polo azul de gola roxa e sapatênis bege escuros, tirando um chapéu que não haveria sobre a cuca, para velhice móvel cada. Foi quando num esbanjo de imaginação de foto retornei às duas nêsperas em avesso quanto a cores que me fitavam do outro lado da sala. Não tinha seu nome, mas tinha do seu corpo o dedo miúdo do pé descalço, e o topo dos cabelos quase ruivos; com a consideração da estrada que ligava os cantos. Não se sabia de repente o por que, mas me desviava o ver por segundo e então voltava com um sorriso entregue pra mim. Carlos então nem reparando o irregular festejo erótico das duas sombras escuras, minha e dela, que se encontravam no instante ao centro da classe; contava que crises conjugais costumam alterar tanto o comportamento de um homem que podiam colocar a vida de outros em extremado perigo. E então pôs uma das mãos cheias de veias sobre a coxa esquerda e brindou que o melhor para corno era limão. Seria exagero comentar que eu esquecia o teste teórico do Detran para sentir daquelas nêsperas o ar, tomar do fruto moça o mel, então deitar estufo ao léu, ou qualquer cousa desta linha em afrouxo: tinha os ouvidos para Carlos, e os olhos em metade do tempo, só via de mim as vezes as nozes por outras minha representação no eixo xis a subir algumas coxas a dedo. E a sombra dela não tinha roupas, nem a minha poderia.. e naquele etério por natureza deitado, as árvores entravam com os troncos à fundo no solo macio e húmido daquele país que não existia; sugando água, seiva e tempo de um paralelo de lençóis de seda. Ao meu lado, um rapaz de cabelos louros e barba rala a invadir as bochechas, se julgou a indicar e me apontou a parte da apostila que o instrutor lia. Então abaixei o esganiço lento e baixo, respirado com firmeza mas num assim macio, que deixava ecoar da sombra dela no que gozava à seco, com violetas e brincos-de-princesa a brotarem do chão do município, e me dediquei à seta à direita. Tinha em frente à lousa uma porção de placas, e sob elas já quase no rodapé, o desenho de um pequeno homenzinho vestido de azul e trajando um quepe oficial cretino a representar sinais de mão que avisassem ordens de trânsito padrão, piscou para mim, sorriu, e tirou o pênis para fora me deixando extremamente sem-graça. Estava para levantar num ultraje e desavença quando Carlos trouxe seu quadril para alguns centimetros acima ao erguer-se, e pôs-se a contar que não tinha absolutamente nada contra o uso de álcool ou mesmo de drogas ilícitas, desde que nunca associadas ao deslocamento em veículo automotor. Então correu contente e engraçando-se consigo mesmo de um lado para o outro, quase tropeçando em carburador, catalizador; peças de mostruário, em contar que na África, babuínos e elefantes viajavam quilômetros para um happy-hour com frutas de amarula fermentadas caídas no solo da savana, e que só de lá saíam quando já trançando pernas.. e que mesmo no dia do porvir apresentavam ressacas. Me entregou na imaginação a pintura de um macaco com as mãos sobre a cabeça, revelando num continente entre pelos a testa enrugada e a feição de "fiz merda, tô fodido", e então respondeu que preferia que a gente o chamasse de "Carlão". Considerei estúpido, reclamei torcendo o indicador com o mediano, e então percebi que tinha uma orelha avantajada, e um nariz que as vezes se assemelhava a um rabanete ao contrário. Chamou nome por nome, assinalei um "b" aqui e um "a" alí, passei cola para o menino de barba rala a invadir a bochecha, me deliciando com o quanto não conseguia entender para que pedia auxilio num teste que não valia nada e era só de auto-avaliação. Então saí primeiro, espiei de lado a placa vertical de "c.f.c", e embrulhei na mão duas notas de um real.

Pensei que assim se tornariam moedas.

Segunda-feira, Abril 11, 2005

Pode ser.
Pode ser.
Eu vou pra cá, você, pra lá.
Tudo bem, pode ser.
Qualquer dia, eu pego seu telefone.
Qualquer dia, não pego.
Tanto faz, né?
A beleza, a gente faz.
A gente faz do jeito que quiser.
Pode ser.
Não sei.
Pode ser.
Jura!? Você também?
Pode ser, né?
Eu quero tanto que possa...
Não tanto.
Um tanto.
Bem que poderia ser.
Nunca é.
A gente se acostuma.
Sempre.
Podia ter sido diferente, né?
Mas não foi.
De novo.
De novo.
Ah, podia ter sido.
Você não deixou.
Você não quis.
Você não tentou!
Já esqueci.
Já passou.
Pode ser.
Pode ser.
Se vier pra cá, vou pra lá.
Pode ser.
Má qui porré essa!?
(e cusparada)

Sábado, Abril 09, 2005

Pedaço de ônibus

A noite caiu mais uma vez.
Não caiu, com ela, a sensação de incessante cansaço, de corpo que mal se mantém de pé.
Abafada e cheia, pede-se para que o dia seguinte não insista em perturbar o que ainda não terminou.
Ando mal-humorado. Mais do que de costume.
Ando discutindo com as pessoas.
Discussões deveriam ser evitadas, trazem-me apenas desgaste, mais desgaste.
“Mano! Pelo amor de Deus! Pára de ser esse retardado que você é, seu retardado!”
Nada de satisfação.
Nem cinema.
Seja do jeito que eu sou?
Só milk-shake de ovomaltine.
A noite invade com o peso do dia que já aconteceu, com o peso do que teve de vida não querendo ser vivida por mais um dia.
Em meio a um gosto amargo de boca, nas costas, desgostoso é o peso de cada pessoa. Desapegado e desiludido, também.
“Nasceu com vida, você é uma PESSOA. Sendo uma PESSOA, é dotado de PERSONALIDADE. Está, então, sujeito a direitos e obrigações.”.
É...jus gentium, gencium, quem?
Ninguém.
Ninguém não fica em itálico.
Saudade de...ninguém.
O meu ônibus é laranja e branco. Mais branco do que laranja. Ele é pequeno e vazio. É raro. Como raro, é dos que mais demora pra aparecer, pra passar. Não! Não passa, não! Ergo o braço, tem de parar. Nunca pára na minha frente, como que de sacanagem de lição que diz que, para se ter o que gosta, é necessário sempre, pelo menos, um pouco de esforço. Pois bem. Mas é pequeno e vazio. Não tão pequeno, porque faz eu me sentir maior dentro do que fora. Meus olhos viram um híbrido de lentes de câmeras e telas de televisão. E, no meu filme, peço minhas férias de doze meses a cada ano. Deixo o papel principal pro velho rabugento e resmungão, que reclama, com razão, da mudança, sem sentido, do percurso. Ou pra mulher de voz estridente, que faz do ônibus, um palco de um show de humor, fazendo todos os escassos passageiros rirem ao reclamar de tudo e ficar mandando o motorista à merda, chegando até a simular um chute, cá entre nós, todo desajeitado. E, então, sou eu, o menino que, hesitando um pouco, arrisca um brilho: “Pô, motorista, joga ela pela janela!”. Isso pra, quando passar na tevê, eu mostrar pra todo mundo a minha grande participação especial.
Não deixa de ser pequeno e vazio. É abafado, também, como os últimos dias e, como até, tudo que tem sido de noite. Ele não tem letreiro eletrônico, não. Que bobagem. Mas a catraca adequou-se à tecnologia do bilhete único.
O nome dele vem escondido, miúdo, quase despercebido, na frente: “VILA IDA”. Aquela vila, na qual, provavelmente, existiam anciões, velhinhos, daqueles mesmos que, de vez em quando, de vez em quase não me lembro do último, aparecem colorindo o dia e sendo coloridos por ele, emprestando, por um tempo, não o bastante para nos acostumarmos, essa sintonia que tiram não sei de onde, nem sei de quem. Pois então, na tal vila provável, esses velhinhos, pra quem tivesse tempo de ouvir, diziam: “Vila Ida! Quem a conhece, dispensa a volta e descobre a vida.”.
Foi aí que, num qualquer dia, apareceram uns meninos, daqueles que sempre existiram, que sempre existem, interessados pelo saber, vieram expor, de um jeito pomposo, que aquilo tinha dois sentidos e, pior, eram dois sentidos opostos. Evidenciaram que, quem fosse à vila, podia, interpretando-se a frase dos anciões, não voltar pro lugar de onde veio, ou dela ir embora, não voltando, nunca mais...
Os velhinhos tentaram não demonstrar total desinteresse pela questão levantada e, com a tranqüilidade de ar superior e pleno, natural, não a inconstante dos que a forçam, aos garotos ávidos pelo conhecimento e por novas descobertas, responderam: “Na Vila Ida, só muito pensa em volta quem não percebe a saída.”.
Claro que não era isso que saciaria aquelas mentes cheias de questionamentos, ambiciosas, contestadoras, que desejavam sempre mais e mais. Mais do que alcançariam. Mais, até, do que poderiam suportar. E os meninos, orgulhosos, praqueles velhos mostraram que sabiam muito bem onde estava a saída e, da Vila Ida, saíram, sem volta.
Tá.
E por mais juiz ou desembargador que seja, só arrepia e toca mesmo quando, à parte de toda a exagerada artificial cordialidade dos personagens-cenário, esbarra no sonho que mal se ouve, perdido num canto qualquer. E esse é o único momento em que o próprio corpo sente-se e eleva-se ao ponto de apagar todos os outros, os malditos podadores que anulam toda possibilidade de paz.

Sim, sim! Dê-me um sorriso desprovido de qualquer angústia, dê-me a dança sem o ritmo do mundo, o passo mais destoado e desapressado, fora desta harmonia desesperada. E que eu rompa com este entrosamento que não me envolve e não deixa eu me envolver, usando do canto mais gordo, estufado, preso neste peito, preso na ânsia do tarde-noite, noite-dia, dia-dia-dia-dia e que saia rasgado, abafado, tímido, solitário e triste, como tudo que há aqui.

Domingo, Abril 03, 2005

Bota esse guarda-chuva no lugar, menino! Não vê que pra você, já foi mais do que merecer, um pedaço dessa calçada lotada!

Dormindo, tanto poderia dormir, sugere o que for, vento como for, choque entre os mais altos prédios, que as luzes das mais esbanjadoras fazem procurar motivo pra não se colocar em situação pior. Dorme, não dorme ao não querer acordar, só acorda por não dormir.
Que de novo ela, roleta, começou a girar, sorteia outra vez, sorteia, nunca foi dos mais sorteados, mas prúltimo dia deixa o namorado pra se sobrepor a qualquer auto-baixa-estima de prolongado, que nunca se prolonga, mas, em uma das, deveria se prolongar.
A cadeira não se moveu e não vai se mover toda vez que assim não quiser que sejam movidas as pernas suas, mas nela, não mais ela, que nem deu chance a nome e a despedida, e, sim, chuva, Juto e nada suficiente de vida.
- Hã? quem, assim, de repente...nada.
- Quando foi que...peraí, escorregou em qualquer canto ou coisa assim? E, esconde o rosto, limpa o suor, o calor não sai...não vai. Esconde o rosto.
- Não olha pra mim. Mas sou eu quem encara...mas não olhem pra mim! Não quero, não gosto.
- Que horas? Por onde?
- Não sei, de skate, talvez, pode ser?
- Mas como, não, por onde?
- Por onde desça e não suba.
- Mas toma tombo, não sabe de skate. Bolas! Não sabe nem a pé e acha que sabe dançar. Desce lá na piscina, toma um ar, conversa com quem tá lá.
- Não quero.
- Fica em casa, então! Faz nada e faz um pouco.
- Também não quero.
- O que quer, então!?
- Bah, quero chutar a sua bunda!
- Então, chuta!
- Chuto! E chuto a da velhinha que volta da igreja!
- Mas, meu Deus!
- Quem?
- Deus.
- Deus!? Não chuto a de ninguém, chuto a de quem...
- De quem?
- Se pudesse, chutava a minha mesmo. Mas bah...não, ok. Tá bom. Só de ovos de cordorna, uma porção, então. Pode ser?

Sexta-feira, Abril 01, 2005

é que eu escrevi um e-mail.

não demora e eu passo pra te ver.
então te mimo se ainda me quiser.

sinto sua falta.
deixo com você este março que foi nosso.


que ficar do seu lado seja amanhã e porvir, por
antes precisar ver do rio, semanas destas que sentem saudades e contam...

olha monise, te pedir assim....
não vai embora nunca...


....fica.......
saudade.

Eram dois rapazes, de bicicleta; queriam tanto pedalar sincronizados que se enrolaram e caíram. Juntos.

Sonho com um delicioso hambúrguer de picanha maturada argentina e um copo de bourbon. Maltado. Uma tigela com meia porção de batatas felizes -aquelas que sorriem- quentes e fritas. Um copo com leite batido com sorvete de coco; daí pedir um chiclete de menta no à seguir.
Veio, sorriu. "Olá". Puxou a cadeira do corredor e sentou. "Que você tem de me ligar todo dia?" Eu te amo. "Que tem isso?" Não sei, porra! Merda!. Veio, sorriu. "Olá". Puxou a cadeira da direita e sentou. "Você não me ama mais." Que bobagem, quer parar? "Aposto que tem outra, não tem?". Vai tomar no cú!. Foi embora e eu paguei a conta com um cheque sem fundo.
mensagem.

Alí ao lado, homem traja amarela camiseta de mangas curtas. Parece raro, e ele se destaca como se estivesse grifado. "Com certeza é da equipe de marketing", comento. Qualquer nível da formalidade é pedível. As pessoas aqui são inteligentes, não nego; pois não entendo o que dizem. Mas devem me considerar esperto por que escrevo no verso de uma confirmação de voo. "Grande São Paulo" comunica uma -quem sabe- grande visita. "Este é meu sobrinho",e Curitiba anoitece cedinho. Premissa para comer até abrir mais um botão. Andar na rua e ouvir um murmúrio de "balofo". Acredito que todo empresário que se prese deva ser gordo, como todo psicanalista; barbado. Mas parece injusto se considerado o chefe sempre pouco ativo em sua cadeira de checagem de vendas (ticket de refeição para comer um bujo); barba no rosto de Freud. Sou alguém que nunca houve, inédito; um filme que estréia direto na locadora e não foi anunciado..um disco que se lança na prateleira de sete-e-noventa das lojas americanas. E eu tinha razão, por que o rapaz era da equipe de marketing por ostentar uma bandeira de "easy going". E por escrever áspas noutra língua, lembrei do japonês de aparelhos nos dentes que pedia desculpas no fone por engasgar nas turbulências. Comi um bolinho. E estava gostoso. Pelo ode inevitável às coisas que flutuam: estava no ônibus para sair do confinamento agrário, lendo "Seleções" quando pensei e corri num anote: "tantas mulheres de beleza dura, e aquela alí parece ao ponto de voar.." Acabou meu tempo de hoje como administrador, e agora vou usufruir do mundo que eu destruo. Lembro. Isto é uma carga; definitivamente não é uma caneta toda. E piloto sem combustível é pedestre. Provado; volto já. Sinto saudades e ainda sou o antigo aluno preguiçoso, amante de uma menina que agora contém carbono até! Quarto de dia. Me oferece um posterior quarto de hotel, e estamos combinados. "Vamos fechar o mês antes que o mês nos feche." Tranca a porta e joga chave fora!! Esta é a nova fase e ela independe. .. puxa, aquele realmente escreve com uma carga.

Dia 2; paz na sala da administração. Mulher bonita canta na ala de propaganda, puxa os "r's" para lembrar que, deste afinal; Paraná. Veio, não faz muito, um homem com sorriso medroso fuçar no lap top da gerência. Toca telefone as vezes ao mesmo tempo que falam dois ou três rapazes ou mulheres de camiseta rosea e dedo em riste para pressionar a mesa; e meu segundo personagem tenta convencer o primeiro de que "o mercado de ações e a especulação financeira" quem sabe. De noite, sentamos de frente para a praia e tomamos sorvente de menta; no filme uma menina endoidou e matou um monte de gente, um arpão perfurava o saco de um careca e um sinalizador de barco servia de arma contra a moça das heras. No braço, a tatuagem de coração pulsaria, se não mentisse desenho. Pisei em falso e sugeri um bueiro; mas não havia grande sentido no escavo de qualquer maneira. Me lambuzara de café da manhã de hotel, e conversara com o canal à cabo que apontava vantagens em beber suco de abacaxi antes de praticar sexo oral. Parei; tomei banho e perguntei se celulares recebiam mensagens de texto quando desligados. A resposta era que sim. Voltei a pensar na moça da ala da propaganda e a conectei diretamente com o comercial pessoal que apresentei para a mãe da Natália; fui apresentado vestido de gerência e ela não hesitou em medar bola, colocando os dedos entre os botões da camisa branca, à altura dos dois seios fartos, vacilando os olhinhos claros quase doces por entre meus fios grisalhos que têm surgido nos últimos: fui obrigado, que por segundo, a imaginar uma versão adulta de "O fantástico mundo de Bob",onde aquele tio de roupas floridas vigiava a porta do escritório enquanto eu exercia logo o justo: comer a moça da baixa hierarquia funcionarial. Desperto com um português de Portugal pedindo um Capuccino; e Afonso, gordo, homem que conjuga fielmente todos os "tú's", rei de Santa Catarina -província do baixo sudeste continental- ainda não voltou. "Cliente: Wal-Mart, Meta 2004- até junho -de duzentos mil reais" Sabe, sei que o mundo precisa de gente que limpre banheiros, e gente precisa de empregos, mas não concordo com o abismo salarial: e existe justificativa para que se julgue usar termos como "FOB" e "taxa Pif!" mais esforço do que recolher bosta de lixo de papéis -por que tem sempre um visitante que por lá se aga- enfim? E de perto a única formalidade é esta; joguei o mundo ruím para o lado. Nós cultivamos pessoas imbecís, como cebolas; para exercer o trabalho sujo: e talvez todos devessem ter chance de subir, e mesmo eu por incompetência administrativa ou por escolha de mínimo esforço ou por quarto-de-período e pouquíssimo orgulho pudesse me terminar por descolar chiclete de cadeira escolar.

A mulher entrou de novo na sala. Os fuzíveis piscaram e o comissário pediu pra que fossem desligados os celulares."Eu me recuso". A mulher olhou para mim; "Mas do quê, ora filho de Deus?". Me recusava a sustentar o comentário dos seios fartos como se fosse cobiça: "Eu não te quero!". Gritaria matar o cotidiano do salão, e as mesas e os computadores espiavam em mim o trair de silêncio. "Mas não gosta de mim?".Abriu dois botões da camisa então forçou que o soutien deixasse que os mamilos zoneassem o vento condicionado; depois de puxar mais um pouco, se decidiu por despir-se do topo todo e deixou os peitos ao ar, num duro reparar de tinto frio. "Você não me canta mais que paisagem, mulher!" -Mas viril me quer- Contou levantando a saia escura até metade das coxas lisas. "Não vou me alongar: te descreví como descreví a pança de Afonso." E fim. Aí puxou os "r's" para lembrar que,deste afinal: Paraná.
Ninguém acredita e nem eu, mas mantenho para funcionar; contaria, putaria é para os outros, que quero manta azul, frio de embaçar vidraça, meias macias e minha menina com as mãos no meu entorno. Hoje a gente assiste filme sobre amenidade ou revolução comunista; até sobre boxeadoras que mordem as próprias línguas. Olhe só, falei agora e é verdade mesmo: retiro dizer que não acredito. Gostaria que essa mulher equipada cumprisse seu querer para lá, onde alguém a quer a cumprir. "Se não deu pra perceber, eu não sou quem vai tirar você." Puxa, bom dia Lobato, horas daí e acabei de te citar; senti enorme invejinha da sua apresentação como psicótico, gênio perdido no mundo: mas concordo sobretudo na segunda. Puxa, feira; vontade de comer pastéis com palmito, ou rolar no carpete por causa de especiais com ovos. "Ele corre o dia inteiro,né?" O homem tinha um flecha de suor na camisa, apontando para o seu traseiro. "Ele corre o dia todo, né?" Imagino que manter-se elefante deva comer caminhões de comida. Aliás, tem tipo de quem chama lasanha de "massa" e macarrão de "pasta". E as pessoas relutam quando a gente vai discutir a transformação da gramática normativa, que não existe o "errado", mas só o "fora do ciclo, este, de uso". Por exemplo na inversão dos plurais em "Nós" e "A gente", até o Rafael Sampaio mordeu. "Pô, sabe quem mais é Sampaio?" -Flávio- ou na tradução: louro. Pronto, andar da diretoria, sento na mesa do presidente da "Atlas" e folheio catálogo com foto de feijoada, "um sabor extremamente brasileiro", que promove fogão de quatro ou seis bocas. E vem alusão à delícia, que mesmo é, de tomar banho de piscina e enxugar-se em toalha quentinha e macia; mas a idéia é promover uma "super cinco ponto zero". No meio do shopping havia uma cabine e uma cabeça de trem, e o escancaro de que alguns impostos eram evitados por manter o caráter "estação da luz" no lugar. "Finalmente, me consegui organizado", no fundo da tela de um, o filho nenem e contente; do outro, um campo suiço onde duvido que vá. Pouca gente vai: -Perdão, senhora-ovelha- canta a caixinha de fósforos anunciando "Bristol". No jogo é simples; para correr, aperte a tecla "control" e a frente; para a vida real, entre na Fundação Getúlio Vargas ou na FEA,USP; mas sabe? Eu não corro, eu "escorro" como quiabo bem dizia mamãe entuxando batatas no prato, queimando cacau como troço do demônio. Quero que o mundo "cresça", seja que cús for isto querer; mas tem um negócio muito errado na harmonia universal: eu não consigo entrar. Tenho paredes morais em relação a tudo. Então o que me sobrou?

Fugir para o Rio de Janeiro e deitar na orla, sentar para papear com Carlos Drummond de Cobre, cantar sem ser músico, escrever sem "saber como se faz" ou "dominar a arte de", virar dramaturgo sem assinar peça inteira em cartaz (parte, veja bem, não se sabe mais): ser filho sem me ver recém parido ou no ato de; me sobrou ser gente. Que como gente, vou entender uma parte por que basta uma parte, e então vou comprar meias macias e ligar "sete, três, três, dois..." e disfarçar o coração: "Olha, sou homem completo, sei o que quero, sei pra onde vou; no meu mundo haverá certeza de lareira e quatro vagas na garagem." Não. Se vier tem certeza de mim. Você ganha um menino, quebrado, dos que se perdem e aludem à constelação do "enfático". E o resto prometo que tento.