Domingo, Abril 11, 2004

Pausa para foto.
Abraça-se os sorrisos, abraça-se uma paisagem que ilustra os sorrisos ou eles são ilustrados por ela.
Silêncio, por favor. Esse alvoroço me incomoda e me deixa inquieto. Normalmente, quieto.
"Por que não fala nada?"
Deve ser porque quero aparecer.
Extasiado, gritaria, correria por cima dessas mesas, cabeças e pratos. Reprimido, manifesto meu acanhamento, minha fraqueza.
Quem não aproveitaria tal vulnerabilidade?
Iniciam-se os ataques.
Outra pausa. Outra foto e não seria difícil encontrar outra razão para sorrir e, tudo é incorporado pela paisagem que subsiste para quem quer ela e para quem precisa dela.

Sexta-feira, Abril 02, 2004

Desistiu?
Que bom, eu sempre desisti.
E não me venha com é melhor se arrepender pelo que fez do pelo que não fez.
Que desista novamente e não tenha essa chance.
Que retire o bilhete premiado e embarque, melhor que seja de manhã pois de manhã, excluindo os que insistem sempre em ser sorridentes e falantes, os rostos aparentam tão mais apagados, os olhos continuam a desviar, mas são olhos desesperançosos, olhos que percebem que o dia-a-dia continuará a ser o dia-a-dia.
Mas, a câmera se move e os olhares se distanciam e eles se dissolvem e a tarde se anula e todos dançam quando, então, escuta-se:
"O meu sem vinagrete por favor.".

Esquecer de pedir sem vinagrete pode acabar com toda a magia que envolve aquele sanduíche, o prensado, na primeira mordida que se espera o sabor de cada ingrediente, menos do molho vinagrete. A vontade é de no mesmo momento, apenas, abrir a mão e observar ele se espatifando no chão.

É, quando eu nasci, esqueceram de avisar que eu era sem vinagrete.

Quinta-feira, Abril 01, 2004

Não há nada a mostrar.
Lê-se a placa.
Realmente.
Provaria o contrário?
Inscrevam-se os interessados.


O caminho é sempre o mesmo. A ida é sempre a mesma. Não são sempre os mesmos e, no entanto, são sempre os mesmos e cada um exibe a placa.
Mas, tem alguém ali que não tem a placa. Engano. Que se iluda ou perceba que ele esqueceu em casa ou perdeu ou esconde ou, enfim, ele também tem a dele. Cada um tem a sua, cada um com o seu próprio jeito ou com o jeito do outro. Normalmente, o jeito do outro com o jeito do outro com o jeito do outro, e os dizeres, de um jeito ou de outro, se repetem.
O vagão continua. A ida é sempre a mesma. Estação Sumaré e a bela vista ofuscada pela miopia e pelo sol que acabou de nascer e não é visto em mais nenhuma estação do percurso. Estação Clínicas, Estação Consolação, Estação Trianom–Masp, Brigadeiro, Paraíso (maldita baldeação), Vergueiro, São Joaquim. Direito de saída concedido a todos do zoológico e os que saem, saem em alvoroço, assim como em todas as outras paradas , mas nessa, vou junto e sou jogado contra a porta. O sinal anuncia o término do ensejo e, por uma fração de tempo, consigo sair. Na escada rolante, tudo se repete e sempre se repete porque se a pressa é inimiga da perfeição e nenhuma pessoa é perfeita estão todos apressados ou fingem estar apressados ou devem estar apressados para manter um ritmo uniforme com os outros que traçam trajetos pela calçada. Pressa, uniformidade, pressão, impaciência que me obriga a ser o mais rápido e a seguir desviando.
No estabelecimento fechado, estufam o peito, arrumam o cabelo e se juntam à massa que se divide em grupos que, por serem muitos, aparentam um só, assim como as vozes que formam uma só, um só fragor unindo tudo o que não é dito.
E os bancos? Ocupados. As escadas? Congestionadas. Os banheiros? Lotados. Café e comida? É só entrar na fila. As pessoas? Nos bancos, nas escadas, nos banheiros, na lanchonete, divididas em grupos ou não, por todas as partes. Entretanto, não se distingue uma parte da outra. Um todo, uma massa e um fragor. Uma placa.
O vagão continua. Estação Vergueiro, Paraíso (maldita baldeação), Brigadeiro. Estação Trianom-Masp e ilusórias boas recordações deste antigo paradeiro que ficam por lá pois segue-se, Consolação, Clínicas, Sumaré, Terminal Vila-Madalena e a volta é sempre a mesma.