Sábado, Janeiro 03, 2009

Parecia que os passos do meu avô não tinham som.
Às vezes me surpreendia com ele já posicionado ao meu lado, falando baixinho qualquer coisa.
As palavras eram poucas, mas ele escolhia a dedo as mais fortes e rebuscadas.

Freqüentemente, não havia palavra nenhuma e seu olhar se perdia distante.
Isso era típico de quando se achava em meio a muita gente, como nos almoços de família.
Esse era o momento em que muitas vezes meu silêncio encontrava com o do meu avô.
E depois de uma grande pausa sem falar qualquer coisa, ele vinha quase num sussurro com alguma observação curiosa:

- É a quarta vez que aquela moça vai ao banheiro.

A moça podia ter lá seus 40, 50 anos, mas era moça pra ele.
E eu respondia com um sorriso sincero ao dele de satisfação.

Isso fazia parte do seu cotidiano de gracejos.
Sempre pequenos e inocentes.
Até o jeito de brincar do meu avô era silencioso.

Da sua dificuldade de se desfazer de objetos sem utilidade ou de fragmentos desses objetos, criou uma brincadeira com a qual se divertia muito. Colocava essas quinquilharias em nossos bolsos ou bolsas, sem nos deixar perceber, e depois esperava ansioso pelo momento em que nos dirigíamos a ele para contarmos que havia sido encontrado o que ele tinha escondido. Esse era o momento em que ele finalmente soltava o riso guardado e se desmanchava em uma enorme gargalhada, que, muitas vezes, lhe roubava o ar e o deixava todo vermelho.
Tenho até hoje comigo uma antiga prótese dentária dele e com ela a saudade do seu riso... Tão fácil.
Acho que quando ria era o momento em que mais emitia sons.
E não dá pra descrever como era gostoso quando ele ria.

No resto do tempo, ele era mais silêncio.
Em meio ao seu silêncio, sua presença era enorme.
Diferente não poderia ser sua falta.
Já faz uma falta enorme o seu silêncio.

E era assim, silencioso, que meu avô tinha uma quase constante.
De qualquer forma, de qualquer jeito, uma das mãos dele raramente estavam em outro lugar, que não fosse repousada sobre uma das mãos da minha avó.
Acho que era seu jeito, calado ou não, de fazer com que ela nunca colocasse em dúvida o quanto a amava.
E eu nunca vi amor mais bonito do que o dos meus avós.

Eu nunca vi silêncio mais bonito do que o do meu avô.

Quinta-feira, Novembro 13, 2008

É que já cria asas e estão cada vez maiores.

O mundo é enorme e tenho saudades de quando você não tinha dado conta de que ele vai um tanto além de mim (e de quando eu também não).

A gente pode ter outros gostos, buscar outros cantos, procurar outros pousos...

Mas vê se não se deixa perder pelos ventos e correntezas.

Vê se não perde o desconforto de voar sozinha, vê se não perde a pressa de voar de volta, vê se o tempo não faz da distância uma coisa infinita, sei lá.

Vê se não deixa teu ponto de partida deixar de coincidir com o meu.

Domingo, Novembro 02, 2008

Nosso jeans rasga de gasto no próximo passo em falso?

Estou com medo.

Não tenho vocação pra equilibrista, mas tenho que conciliar o peso das duas pernas. Decidi por pular da corda pra me equilibrar no chão.

E estou ainda com mais medo. Não há mais como a queda ser tão grande, mas não é pouca a probabilidade d’eu desfazer meu próprio chão.

Não quero trajes novos. Não quero substituir os antigos. Mas a saudade de quando eles vestiram pela primeira vez meu corpo está embrulhando cada vez mais meu estômago. Não sei se algo desceu mal ou se estou apenas prolongando o frio que me deu na barriga quando pulei da corda pro chão.

E essa mesma corda que esteve sob meus pés, agora abraça calorosamente o meu pescoço.

Sexta-feira, Setembro 19, 2008

Ah, Vagner, dá aqui essa tua mão tão enorme e tão gasta.

Essa vida ainda não te deformou o bastante? De que jeito fazem isso ser possível!? Onde meteram a tua cor!? Como alguém tão grande pode não ser visto!? Será que um dia vão te ver?

Ah, Maria Cristina, eu queria te devolver toda essa voz que perdeu ao tentar conquistar algo da atenção dessa gente tão surda. Sinto não merecer que gaste o que resta dela me agradecendo. Eu não fiz nada.


Desculpa, gente, eu nem sei por onde começar a resolver as coisas...

e não resolvo nada.
quanta injustiça, não?

Terça-feira, Agosto 12, 2008

Isso de não dormir...

De repente o sono se perde num zumbido de mosquito que parece saber da namorada já estar na rua e, assim, zumbe zombando de mim.

E eu acordo, então, às 4 e, já às 8, torço pra que a alegria não acorde depois das 9.
Apertei a mão e o que me escorregou
por entre os dedos preguiçosos de acordar
foi qualquer coisa que nem dei conta de perder.

?

Quinta-feira, Julho 31, 2008

Foram gritos. Foi a fúria. Resposta à cara amarrada gratuita, à ingratidão, à ofensa e ao deboche.

Gritos que não se arrependem, mas que se vestem de medo no segundo seguinte. As mãos trêmulas...e todo o resto do corpo também. E ainda parte de vontade engolida, fala adiada, monólogos fora de tempo subsituindo a parte do diálogo que ainda se conteve.

Medo. Fuga. E ainda mais medo.

O que desandou não foi de repente. Mas se os sinais existem são subestimados e ofuscados pelo que há de bom e que é tão bom. Qualquer coisa realmente saiu dos trilhos?

Tive chão por tanto tempo e de repente me percebo afogando sozinho. Você boiava naquele mar de edredon azul, era minha ilha e apenas nos afogávamos um no outro. Não?

O empenho ainda existe. Ainda ontem te pedi em casamento. Fantasiei tantas noites aproveitadas ao seu lado, mais ao seu jeito do que ao meu e me percebi acreditando empolgando em tudo que prometi. Estive orgulhoso ao pensar ter aprendido a andar ao seu lado sem tropeçar. Mas agora, logo em seguida, sou surpreendido por um enorme tombo que tomamos juntos, de mãos dadas...

Ainda te tenho sorrindo tão bonita e comigo. Isso não pode passar a se resumir às nossas fotos.

A imagem das tuas costas nuas e morenas me acordaram. A parede fria me adormece e me embala num medo sussurrante.

Sexta-feira, Junho 27, 2008

J. C.

Não vi, mas já deve ter tempo...



Teve um dia que ele tava tão cheio, tão grande, que quis vê-lo logo fora dali, daquele hospital.

Tão inquieto ele tava! Muito menos inchado de edema do que de vida.



E aí eu já tinha quase esquecido quando revi seu rosto...

Foi um ou dois meses depois.

Foi quando eu já tinha quase esquecido,

mas aí eu vi suas mãos deixando o mundo escorregar por entre os dedos.

E vi seus lábios não tecendo mais uma tentativa em vão de levar uma enfermeirinha pra cama...



Sei lá. Acho que ali, então, o que ele menos queria era cama.

E se fosse pra ele pedir de verdade uma coisa pra alguma enfermeira, seria pra que ela o tirasse de vez daquela.

Metade do jeito que ele tinha saído da última vez...



Mas acho que ele não saiu mais andando daquela cama, não.




Na verdade, não sei.




Não vi.




Já fazia tempo...


Quando voltei, ele não tava mais lá.
Meu estômago cansou de mim.

Foi de repente...

Quando vi, ele tava do lado de fora

e me meteu um soco na cara.

Foi desse jeito.

Agora, quando fico cheio, é só no saco.

É assim.