Quinta-feira, Janeiro 14, 2010

estou atrás de um troço meio raro...

nem sei se existe.


E não confio muito nos meus olhos,

foram pouco treinados.


Não há nada mais frágil do que uma coleção de verdades.

Quarta-feira, Janeiro 13, 2010

As ondas indo e voltando pesadas,

arrastando com pouca vontade as imundícies da baía de guanabara.


O mar parecia desiludido e bem cansado desse ir-e-voltar...

Segunda-feira, Novembro 30, 2009

O gavião cego

Tombou o filhote de gavião num quintal.

Tinha a vista de um olho bastante prejudicada.

Sorte sua que não era um quintal qualquer...

Hoje, depois de 4 ou 5 dias de cuidados, ele retomou sua liberdade, voando pelas árvores mais altas.



Tem gente que ensina sem perceber e não me convence quando fala que aprendeu com os tombos da vida.

Não há engano. A fala desses que acreditam que erraram, que acham que foram tortos os caminhos que escolheram, não é a de quem acredita realmente no que diz. Eles fariam as mesmas escolhas se pudessem voltar atrás. Não importa o quanto tentem dizer o contrário.

Não é difícil perceber que há erros básicos que são do mundo e não dos caminhos escolhidos.

Fui levado de encontro à minha escolha sem me dar conta, como se a tivessem feito por mim: aprendo o andar dos que caem e, mesmo com o muito que se diz da impossibilidade de ficar de pé pelos caminhos deles, tento os mesmo passos.



Espero que, num desses tombos, não reconheçam a minha invalidez. Espero que valorizem as minhas tentativas.

Espero que, se eu cair, quando cair, tenha a mesma excepcional sorte do gavião cego.

Tendências do mundo

Daqui a pouco,

não vai demorar muito,

quando nos encontrarmos velhos o bastante pra morrermos,

definharemos em um concurso de grande concorrência

pra se conseguir uma vaga no cemitério.


E vai ter gente ganhando muito dinheiro com isso.

O ar,

eu o tenho aos poucos.

E o pouco se torna progressivamente menos,



dia após dia.



De repente o mundo pára sufocado.

E dou por mim que o mundo não pára...


É que às vezes a gente tem que soltar o paralamas do mundo...

pra ter um pouco o que respirar.

Quinta-feira, Novembro 19, 2009

...que se abra uma roda e que eu me espante por ter, no centro, um riso frouxo a se perpetuar.

Felicidade fora.

Dentro, sempre, vontade de mergulhar.

Sábado, Outubro 17, 2009

Flores em preto-e-branco

E de repente é como se cada raro riso bobo fosse imediatamente roubado pelo vento, antes de qualquer tempo para ser notado, sentido e curtido. Sem nenhuma chance de se perpetuar.

Cada nota triste, cada toque tênue e doloroso, cada respiração incompleta, cada suspiro profundo são tão mais duradouros. Rasgam-se mais e mais, lentamente... Não por novos cortes estarem sendo feitos, mas simplesmente pela própria tensão natural das bordas da ferida antiga que se mantém aberta.

Sei das flores que você gosta. Das orquídeas, dos copos de leite, dos girassóis. Eu não sabia nome de flor nenhuma.

Eu não sabia que as flores que cobrem a beira da estrada chamam-se beijos.

E agora tenho medo de que os beijos da nossa estrada percam-se de repente. Que não encontrem mais o gosto de antes e metam-se em caminhos esburacados, em que as placas apagadas e enferrujadas trazem indicação vagas, confusas e erradas, onde não há ninguém pra pedir informação.

Meu maior medo é que, ao me perder de você, eu seja obrigado a me perder entre as bucetas de outras meninas. Que me parecem agora flores em preto-e-branco.

Sábado, Janeiro 03, 2009

Parecia que os passos do meu avô não tinham som.
Às vezes me surpreendia com ele já posicionado ao meu lado, falando baixinho qualquer coisa.
As palavras eram poucas, mas ele escolhia a dedo as mais fortes e rebuscadas.

Freqüentemente, não havia palavra nenhuma e seu olhar se perdia distante.
Isso era típico de quando se achava em meio a muita gente, como nos almoços de família.
Esse era o momento em que muitas vezes meu silêncio encontrava com o do meu avô.
E depois de uma grande pausa sem falar qualquer coisa, ele vinha quase num sussurro com alguma observação curiosa:

- É a quarta vez que aquela moça vai ao banheiro.

A moça podia ter lá seus 40, 50 anos, mas era moça pra ele.
E eu respondia com um sorriso sincero ao dele de satisfação.

Isso fazia parte do seu cotidiano de gracejos.
Sempre pequenos e inocentes.
Até o jeito de brincar do meu avô era silencioso.

Da sua dificuldade de se desfazer de objetos sem utilidade ou de fragmentos desses objetos, criou uma brincadeira com a qual se divertia muito. Colocava essas quinquilharias em nossos bolsos ou bolsas, sem nos deixar perceber, e depois esperava ansioso pelo momento em que nos dirigíamos a ele para contarmos que havia sido encontrado o que ele tinha escondido. Esse era o momento em que ele finalmente soltava o riso guardado e se desmanchava em uma enorme gargalhada, que, muitas vezes, lhe roubava o ar e o deixava todo vermelho.
Tenho até hoje comigo uma antiga prótese dentária dele e com ela a saudade do seu riso... Tão fácil.
Acho que quando ria era o momento em que mais emitia sons.
E não dá pra descrever como era gostoso quando ele ria.

No resto do tempo, ele era mais silêncio.
Em meio ao seu silêncio, sua presença era enorme.
Diferente não poderia ser sua falta.
Já faz uma falta enorme o seu silêncio.

E era assim, silencioso, que meu avô tinha uma quase constante.
De qualquer forma, de qualquer jeito, uma das mãos dele raramente estavam em outro lugar, que não fosse repousada sobre uma das mãos da minha avó.
Acho que era seu jeito, calado ou não, de fazer com que ela nunca colocasse em dúvida o quanto a amava.
E eu nunca vi amor mais bonito do que o dos meus avós.

Eu nunca vi silêncio mais bonito do que o do meu avô.

Quinta-feira, Novembro 13, 2008

É que já cria asas e estão cada vez maiores.

O mundo é enorme e tenho saudades de quando você não tinha dado conta de que ele vai um tanto além de mim (e de quando eu também não).

A gente pode ter outros gostos, buscar outros cantos, procurar outros pousos...

Mas vê se não se deixa perder pelos ventos e correntezas.

Vê se não perde o desconforto de voar sozinha, vê se não perde a pressa de voar de volta, vê se o tempo não faz da distância uma coisa infinita, sei lá.

Vê se não deixa teu ponto de partida deixar de coincidir com o meu.